Em apuros – Por Leopodina Freire
Em apuros, numa mesa de bar, bebo sozinha e o tempo não passa. Sob o efeito do álcool, aos prantos, escuto uma voz oculta que teima em perturbar-me a mente: “Mesmo que restasse um mínimo de resquício daquele amor, que outrora fora único; sua mulher maculou a relação de vocês.” Mas o que é uma mancha se não algo que pode sumir com os raios do sol? Essa não é igual… É daquelas que te fazem relutar por expulsá-la e mesmo assim ela aparece nos momentos mais inoportunos. Quando você pensa que não, se depara no espelho e lá está ela te olhando.
E tudo ia tão bem, na mais perfeita harmonia. Noites de amores longas, trocas de carinho intensas e declarações de amor mútuas. Como é possível representar o amor tão bem assim? Finge tão realmente amar-me quando não mais me quer. E esse tal de amor; julgo não mais existir; julgo nunca existira. Serei eu agora a conhecedora única da verdade. Perdi completamente as esperanças e temo pela solidão da eternidade. Estou em apuros e meu coração aperta tanto, que posso ouvi-lo os gritos de dor.
E eu que sempre fora tão fiel aos meus sentimentos. Apaguei todo o meu passado e prendi-me a você de corpo e alma, tornando-nos únicas. Mesmo magoada, como se uma bala me atravessasse as entranhas, ainda assim, te perdôo a fraqueza e jogaria tudo pro alto, se aos meus ouvidos sussurrasse a tua voz. Devo agora está me anulando. Não posso simplesmente fingir e roubar da minha memória o trágico e cruel flagrante: Eu vi com meus próprios olhos. Se fosse simples apagar ou arquivar num espaço inóspito e esquecido – resgataria a minha felicidade, a minha vida de volta.
Dou-me conta do abismo e do buraco tão profundo que me separa da realidade. Não quero viver mais. Pronto, esta é a minha decisão. Posso experimentar a morte e descobrir se ela sentirá a minha ausência. Posso deixá-la infinitamente arrependida, em apuros, aos prantos, sozinha, numa mesa de bar, sob o efeito do álcool. Talvez a fizesse sofrer pela minha perda; arrepender-se do insulto, da safadeza.
Desabafos, divagações, não me a trarão. E pensar que era o amor da minha vida. Seguirei com a dor e permanecerei leal sempre – ao respeito, à cumplicidade e a sabedoria de entender que quando se apaga um amor, nasce uma esperança.
Por Leopodina Freire
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