Blog lésbico - Lez Femme, Portal de notícias do mundo lésbico em Fortaleza, Ceará. Notícias GLS do brasil

Preconceito – aula de espanhol na Cultura Hispânica

Ontem me ocorreu um fato que nominaria inédito, se não fosse outro com igual similaridade, que me aconteceu em torno de um mês atrás. Em outros tempos, eu simplesmente teria escutado sem dar ênfase alguma, mantendo uma postura imparcial. Não me vejo mais numa atitude passiva quando os fatos se referem à marginalização do homossexual perante a sociedade.


Os dois episódios  foram ambos na minha aula de espanhol na Cultura Hispânica. Debatíamos sobre familiares ou amigos brasileiros que já moraram fora ou tiveram alguma experiência, mesmo que efêmera. Quando, um senhor, colega, ao referir-se a um amigo gay que estivera no exterior, enfatizou com propriedade o seguinte: O amigo tivera uma boa experiência, trabalho, estudo e conseguiu retornar para o Brasil sem pegar AIDS. Aquilo, a expressão, o sarcasmo, o sorriso dúbio, o tom de inferioridade, a forma com ele se referiu aos gays, tratando-os como o antinatural, me fez subitamente ferver o sangue. Não consegui contar até três. Fazia mal aos meus ouvidos.


E se eu calasse ou permitisse que aquelas 12 ou 15 pessoas saíssem daquela sala, passíveis de repetir a mesma barbaridade e coniventes com o absurdo, com o teor amplamente preconceituoso; eu me inseriria naquele círculo.


Foi premente a minha necessidade de retrucar. Retirei forças dos lugares mais recônditos e sem medo de ofensivas, manifestei minha resignação: “Por que ele não pegou AIDS, não entendi? Por que ele é GAY? Por que o fato de sair “incólume” de uma estada no exterior, torna um GAY, um herói? Nesse instante eu gostaria de tê-lo agarrado o pescoço e numa atitude insana, devorado a sua língua, para que nunca mais ousasse a apologia de que GAYS e AIDS são sinônimos – uma dicotomia.


Conforme fonte de pesquisa a AIDS na década de 80 era considerada a doença dos cinco H´s:





Confirmação do primeiro caso de Aids no Brasil e identificação da transmissão por transfusão sanguínea. Adoção temporária do termo Doença dos 5 H – Homossexuais, Hemofílicos, Haitianos, Heroinômanos (usuários de heroína injetável), Hookers (profissionais do sexo em inglês). http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMIS13F4BF21PTBRIE.htm


A forma de transmissão predominante da AIDS é por via heterossexual tanto em mulheres (90,4%dos casos) como em homens (29,7% dos casos).  Entre os homens, a segunda principal forma de transmissão é homossexual (20,7% dos casos), seguida de usuários de drogas injetáveis (19%). http://redemocoronga.org.br/2008/12/01/aids-no-brasil/


Voltando ao que me ocorreu ontem, vou deixá-los pasmos. O tema eram as novelas e suas influências: positivas e negativas. Um senhor enfatizou que uma característica ruim nas novelas era o fato da constante aparição dos homossexuais. As crianças sofreriam uma péssima influência com essas cenas e inclusive era um estímulo capaz de torná-las GAYS ou LÉSBICAS.


Meus caros leitores, é muito sério, é agressivo e triste, a maneira como determinadas pessoas tratam o HOMOSSEXUALISMO. Fico imaginando como funciona a cabeça daquele homem. Talvez como se toda a sala de aula fosse heterossexual, que é normal para ele; e que ele pudesse tratar do assunto de forma abominável, sem interferências. Inesperadamente alguém se manifesta (EU) – Sabe o que ele faz? – Entra em contradição, obviamente com medo de represálias, pois preconceito é crime e tenta se retratar como se eu tivesse interpretado erroneamente. Certamente alguém com essa filosofia de vida, preconceito acirrado; pensará dez vezes antes de tecer qualquer comentário dessa natureza. É preciso que não nos calemos diante de tais situações.

Imagine um ex-presidiário, uma mulher branca casada com um homem negro, uma garota de programa, um rapaz jovem casado com uma mulher 20 anos mais velha e outros exemplos mais – imagine grupos assim, que se reúnem duas vezes por semana, num curso de línguas, tratando de assuntos diversos e de repente, a pessoa do lado, inconseqüentemente, faz um comentário dessa natureza, sem medir palavras, pois até então os alunos estão dentro dos “padrões da normalidade” – heterossexuais. Imagine acontecendo com você.


Letícia Nobre

2 Comentários

  1. Fabia Karinna

    Amiga…infelizmente vivemos numa sociedade onde a ignorãncia, hipocresia e a intransigência rolam soltas… Nós homossexuais somos atacados, execrados, discriminados, tratados como uma coisa qualquer.O que se precisa fazer é lutar sempre em favor das vidas, dos sentimentos, da essência de cada homossexual e procurar-se VIVER apesar do preconceito e da discriminação.
    É preciso lutarmos contra todas as formas de discriminação ou preconceito, contra toda pressão ou opressão às minorias ou simplesmente contra quem é diferente, pelo sagrado direito que cada um tem de ser, pensar ou sentir de forma distinta da maioria, pela certeza de que perante Deus somos todos IGUAIS.

    “Se você acha a educação cara, experimente a ignorância”

    Beijão!!

  2. admin

    Ka, e às vezes, pelo fato da Cultura ser uma instituição tão aberta, acredita-se que as pessoas sejam mais desprovidas desses conceitos errôneos, ambíguos e decerto deturpados, acerca da orientação e opção sexual. De fato, os infortúnios, ambos, foram com pessoas da última faixa etária de idade. Estas, possuem uma visão mais estreita e tradicional no que tange ao nosso direito de autonomia e liberdade. Entrementes, não é razão para que elas mantenham essa postura distorcidade e arbitrária quando se trata do tema HOMOSSEXUALIMO.

Deixe uma resposta

Hyperload - Criação de Sites em Fortaleza - Ceará